8# MUNDO 18.3.15

O GRANDE PESADELO EUROPEU
Cidades inteiras destrudas, bombas encravadas pelo cho, milhares de mortos. A guerra na Ucrnia faz o continente reviver histrias de horror da Segunda Guerra Mundial
Texto e fotos por Yan Boechat, de Debaltseve 

Nikolay Lebedovich passou boa parte da tera-feira 10 revirando os entulhos do que h poucas semanas havia sido sua casa. Aps quase dois meses refugiado com parentes em um vilarejo prximo da fronteira com a Rssia, ele aproveitou o raro dia de sol forte e temperatura primaveril neste fim de inverno no leste da Ucrnia para ver o que havia sobrado intacto entre os bens que juntou durante seus 39 anos de vida. No achou quase nada. Na casa ficaram apenas algumas paredes de p. Seu carro, um antigo Lada dos tempos soviticos, se transformou em um monte de ferro retorcido. Da moto que usava para pequenas viagens at a mina de carvo onde trabalhava, restaram apenas pequenas partes, espalhadas ao lado do automvel azul. Tudo mais estava destrudo. No sobraram eletrodomsticos, mveis, fotos, roupas. S lembranas. Assim como Nikolay, praticamente todos os moradores desta pequena vila de cerca de mil habitantes chamada de Nikishino fugiram quando os combates entre as foras separatistas da Repblica Popular de Donetsk e o exrcito ucraniano se intensificaram no incio do ano. Assim como ele, quase toda a populao local teve suas casas destrudas pelas ferozes batalhas que marcaram a ofensiva separatista para a tomada de Debaltseve, um importante centro ferrovirio no corao desta regio da Ucrnia conhecida como Donbass.

DESTRUIO - Nikolay (segundo da esquerda para a direita) observa o cenrio de devastao em seu vilarejo aps a batalha de Debaltseve

A Ucrnia est mergulhada em um grande pesadelo e traz de volta cenas que os europeus no imaginavam reviver. Caminhar pelas ruas vazias de Nikishino  como entrar em uma espcie de cenrio da Segunda Guerra Mundial. Por todos os lados h cartuchos deflagrados por fuzis, bombas que no explodiram encravadas no solo, grandes buracos feitos por morteiros, restos de comidas enlatadas que os soldados no conseguiram terminar, capacetes amassados e dezenas de lanadores de granadas largados pelo cho. No meio da destruio, gatos e cachorros que foram abandonados por seus donos vagam por comida. Quem esteve em Nikishino nos ltimos dias preocupou-se apenas em recolher os corpos humanos. Os cadveres dos animais domsticos permanecem nas ruas e no quintal das casas, fazendo lembrar que a morte  a cara da guerra.

Como nos piores pesadelos da Segunda Guerra Mundial, h muita gente que perdeu caminhando sem rumo pelas ruas, tentando retornar a um lugar que no reconhece mais. Mesmo com a frente de combate a apenas algumas dezenas de quilmetros da vila de Nikishiro, os moradores decidem que  hora de retomar a vida. O sol que derreteu a neve espessa nos ltimos dias parece fazer com que os ucranianos acreditem que a primavera que se aproxima trar de volta a paz. Se o tempo continuar assim, vou comear a reconstruo da minha casa logo, para que at o inverno j esteja pronta, diz Nikolai. No vou embora daqui, esta  minha terra, esta  minha casa.

Histrias de horror so ouvidas por onde quer que se ande, como se os fantasmas da Segunda Guerra Mundial voltassem a assombrar a Europa. A pouco mais de uma dezena de quilmetros dali, trs tanques destrudos por foguetes disparados por lanadores de mo anunciam que Debaltseve se aproxima. A cidade de 25 mil habitantes foi o palco da maior e mais feroz batalha desta guerra que j matou mais de seis mil pessoas apenas em 2014. Formada em sua grande parte por blocos de apartamentos tipicamente soviticos, Debaltseve no est em runas como Nikishino. Com uma populao to grande  e com boa parte dela recusando-se a partir  um rosrio de tragdias marcou para sempre o lugar.

Alexei Omelayev era criana quando os alemes chegaram na regio em 1941, na grande ofensiva da Operao Barbarossa. A chegada do exrcito nazista e a contra-ofensiva organizada por Joseph Stalin em 1943 voltaram  memria de Alexei nos mais de 40 dias em que ele viveu, com outras 50 pessoas, em um escuro, frio e apertado poro de um edifcio de seis andares, entre meados de janeiro e o fim de fevereiro em Debaltseve. Foi um perodo duro ficar naquele poro, sem luz, com pouca comida e com frio, mas ao menos sobrevivemos, conta ele, deixando  mostra os dentes de metal que ocupam o lugar do que um dia foram os incisivos e caninos superiores. Nosso edifcio recebeu ao menos 12 disparos de artilharia diretamente e outras 20 bombas caram aqui em volta. Pelo que me lembro, os alemo tinham pontaria melhor, diz Alexei, ao lado do pequeno Bogdan Mikhaylov, um jovem de 12 anos que sonhava em ser soldado das foras especiais. Tive muito medo, foi muito assustador, nunca mais quero passar por isso em minha vida, no quero matar os outros e nem morrer, diz ele, que desistiu do sonho de um dia vestir uma farda.

Alexei e as cerca de cinco dezenas de pessoas que dividiram o apertado poro tiveram sorte. Apesar de no haver uma contagem oficial, a estimativa  que algumas dezenas de civis morreram na batalha de Debaltseve. Apenas entre soldados ucranianos que tentavam defender a cidade dos separatistas pr-Rssia acredita-se que cerca de 200 tenham perecido nos ltimos dias de combates. Muitos desses corpos ficaram para trs na atabalhoada retirada do fim de fevereiro e, de acordo com moradores que permaneceram na cidade, serviram de alimento para as matilhas de ces que ainda perambulam pelas ruas destrudas desta cidade estrategicamente localizada entre Donetsk e Luhansk, as duas principais metrpoles controladas pelos separatistas.

A menos de dois meses do incio das comemoraes oficiais dos 70 anos do fim da Segunda Guerra, a Europa teme que histrias como as de Alexei ou de Nikolai passem a se transformar em uma incmoda rotina. O cessar-fogo intermediado por Angela Merkel e Franois Hollande parece cada vez mais prximo do fim. No entorno do Aeroporto de Donetsk, separatistas e as foras armadas ucranianas permanecem em conflito constante. Nos ltimos dias, mesmo no centro desta moderna cidade de pouco mais de um milho de habitantes, o som da artilharia pode ser ouvido, tanto durante a noite quanto durante o dia.  como se o passado tivesse voltado para nos mostrar o que nossos pais e avs sofreram, diz Nadezhda Denshik, uma vendedora de seguros que, como quase todos em Debaltseve, perdeu o emprego depois do incio da guerra. Na quarta-feira 11, Nadezhda aproveitou o dia de sol para limpar o jardim em frente  sua casa. Com uma tesoura de jardinagem, ela retirava as ervas daninhas que sobreviveram ao inverno e pedaos de estilhaos das bombas que caram a poucos metros de sua casa. Vou preparar a terra para plantar tulipas, tomates e pepinos, dizia ela. Como nossos pais e avs fizeram, precisamos continuar a viver.

